Marisco vira agregado oficial de blocos de cimento

Fonte: Informativo Massa Cinzenta – Cimento Itambé


Cascas substituem agregados finos e médios e atendem a um amplo portfólio de artefatos

Tecnologia sustentável aumenta resistência dos artefatos em cerca de 20% e pode ser aplicada em elementos estruturais e não-estruturais

Onze anos após os primeiros testes com cascas de mariscos substituindo a areia fina na fabricação de pavers, a indústria de artefatos de cimento de Santa Catarina já considera o beneficiamento das conchas como um agregado oficial na produção de blocos. Desde 2015, a tecnologia evoluiu. Os resíduos de ostras e mexilhõestambém passaram a ser aproveitados. Além disso, as pesquisas permitiram fabricar outros produtos, como blocos de concreto estruturais e não-estruturais. “Conseguimos produzir elementos com 20% mais resistência que os blocos convencionais”, explica a engenheira civil e ambiental Bernadete Batalha Batista, que desenvolveu a tecnologia.

Com o apoio dos departamentos de engenharia das universidades Federal de Santa Catarina (UFSC) e Unisul, a pesquisa conseguiu chegar à composição ideal dos agregados. “Fizemos vários traços para o bloco de concreto. Chegamos a substituir totalmente a areia fina e a areia média pelas cascas, mas no final optamos por usá-las como complemento em quantidades menores, pois a resistência chega a um limite em que não altera mais. Além disso, usando muito as cascas como agregado o bloco perde a aparência lisa e compromete o acabamento. Já no pavimento drenante a areia é substituída totalmente, pois as cascas ajudam a drenar e a aparência não é tão importante”, revela Bernadete Batalha Batista.

Construção sustentável
Chamados no mercado de “blocos verdes”, os artefatos de cimento que usam cascas de mariscos, ostras e mexilhões atendem as especificações da ABNT NBR 6136:2014 – Blocos vazados de concreto simples para alvenaria – Requisitos. Com espessura mínima de 25 mm, os elementos têm absorção máxima de água na ordem de 10%. Já a resistência à compressão varia de 3 MPa para os não-estruturais a 20 MPa para os estruturais. Essas características fazem com que os produtos conquistem mercado no segmento de construções sustentáveis. “Em 2015, vários empreendimentos que buscavam o selo de prédio verde, principalmente os que atendiam requisitos da certificação LEED, usaram nossos blocos verdes”, disse a engenheira.

Em Santa Catarina, as parcerias com prefeituras e centros de pescadores que cultivam a maricultura na região do entorno de Florianópolis permitiram que o “bloco verde” fosse vendido com preço igual ao bloco convencional. “No entanto, aplicar a tecnologia em outro estado terá um custo maior”, admite Bernadete Batalha Batista. A engenheira entende também que poderia haver mais fábricas produzindo artefatos com agregados da maricultura, porém, segundo ela, falta cultura ambiental. “Até mesmo em Santa Catarina a produção poderia ser maior, pois o estado é o principal produtor da América Latina de mariscos, ostras e mexilhões. Mas falta entender os conceitos de reciclagem e de que, atualmente, tudo pode ser transformado”, avalia.

Além do uso em blocos de concreto e pavers, os resíduos da maricultura podem ser aplicados em outros materiais usados na construção civil. O Conselho Brasileiro da Construção Sustentável (CBCS), através de pesquisas, detectou que as cascas de mariscos, ostras e mexilhões são ricas em carbonato de cálcio (CaCO3) – elemento que pode ser empregado em diversas atividades, como controlador de pH do solo, no processo de fabricação de tintas, vidros e aditivos.